Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2006

NA 1ª PESSOA ( POR "CELTIC" 2003 )

 

Sou sócio do Boavista desde 1989 mas a minha história de xadrez começa muito antes disso.
Nascido no seio de uma família onde a cor dominante era o azul e onde o meu pai era árbitro de futebol comecei desde tenra idade a acompanha-lo a ele e à minha mãe nestas andanças da bola.
 Não havia fim de semana em que eu não ficasse no carro a comer gelados e a minha mãe a fazer tricô enquanto o meu pai apitava um jogo de futebol ou muito simplesmente assistia a um jogo do seu FC Porto.
A zona das Antas não me era de todo desconhecida, muito pelo contrário: Nessas tardes de domingo era mais do que uma presença, era uma fatalidade.
De todo em todo era bem melhor do que quando o meu pai apitava um jogo.
Nessas alturas o tricô e os gelados acabavam bem mais cedo e de forma abrupta capaz de traumatizar o mais pequeno dos gaiatos.
Já estávamos habituados a sair dos campos com os fiscais de linha ao meu lado no banco de trás de um Fiat 127 branco sob um xorrilho de insultos e meia dúzia de guardas da GNR a cavalo enquanto as gentes das pacatas terras que visitávamos nos entorpeciam com os impropérios que habitualmente são dirigidos aos árbitros de futebol.
Embora inserido numa família maioritariamente adepta do F.C. Porto existia no entanto um resistente na família que era Boavisteiro, o meu tio Manel ainda hoje boavisteiro dos sete costados homem de poucas falas e ligado à restauração estava no famoso Poeta, perto do actual edifício da Liga de Clubes, café famoso pelas suas francesinhas.
Foi nessa altura que comecei a tomar contacto com o Boavista.
 Enquanto o meu pai e o meu irmão me tentavam minar a mente o meu tio Manel e um dos donos do Poeta: Sr. Maciel tentavam fazer de mim a ovelha negra da família.
Ainda hoje o Manel no seu Lagostim à Av. da Liberdade e o Maciel no Solar da Pescaria na ribeira de Gaia fazem questão de me receber de forma festiva e sente-se mesmo que estamos em casa de genuínos Boavisteiros.
Devo-lhes a eles e a um vizinho meu, o Sr. Carlos que me levava à bola todos os domingos quando o futebol era a horas decentes esta paixão pelo Boavista.
A paixão nasceu mais tarde por volta de 1989 mas aquilo que se sente no coração quando nos identificamos com o clube nasceu de forma curiosa no início da década de oitenta:
Numa tarde de verão num jogo com o FC Porto o peão da bancada norte do Bessa estava cheio para assistir ao derby da invicta que já naquela altura tinha um gosto muito especial.
 No fim o Boavista foi derrotado por 0-6 e ai mesmo ao ouvir tantos portistas dizerem coisas menos próprias para serem descritas neste texto fiz a minha confissão de fé e jurei a mim mesmo que seria Boavisteiro para sempre.
 Durante os anos que antecederam o final da década de 80 o meu contacto com o Bessa era esporádico.
Devido à minha idade ia algumas vezes ao Bessa apenas com o meu pai e quando passava lá para ver os jogos ou em dia de semana ficava maravilhado só de ver a casa do meu clube e o seu símbolo.
Ora como já aqui mencionei, com 15 anos em meados de 89 quando comecei a ganhar o meu próprio dinheiro com a ajuda da minha mãe e contra a vontade do meu pai fiz-me sócio do clube do Bessa.
O número 15322 passou a ser o meu número mágico, nunca mais me poderei esquecer dele.
Passei a ostentar o cartão que mais me orgulhava na carteira: o de sócio do Boavista FC.
Com o passar do tempo e as visitas assíduas ao Bessa pela mão do já referido sr. Carlos passei a ter contacto com as bancadas e o povo do Bessa.
Primeiro na bancada nascente onde ainda estavam os Panteras Negras e depois no topo sul. Os anos foram passando e quando os Panteras Negras se mudaram para o topo sul eu fui para lá também.
Aí passei a conhecer aos poucos as pessoas que faziam da claque do Bessa uma das melhores do país.
Pessoas com uma dedicação extraordinária como o Perfeito e o Mané complementavam o trabalho de outros que ao longo dos anos emprestaram o seu carisma à claque.
 Não poderei falar de todos porque já não me recordarei da totalidade das pessoas que admirava naquele grupo unido mas o que interessa é que os Panteras Negras foram sempre uma segunda família para mim.
Estaríamos talvez na temporada de 1993/1994 quando me envolvi mais a sério com os Panteras Negras em termos de fidelidade.
Não faltava a um jogo nem fora nem em casa e ajudava em tudo o que podia. Quem não se lembra das tardes passadas na bancada dos treinos onde tínhamos a nossa sede e das reuniões com o Sr. Domingos responsável pelo apoio à nossa causa nessa altura e dos dias a pintar o pano gigante que dizia Panteras Negras.
A fidelização do adepto à claque definia naquela altura e penso que ainda hoje define quem deve estar à frente da sua organização.
Embora considere não ser esse o único factor relevante penso que é um dos mais pertinentes na análise de um director de claque.
Nesse contexto e numa altura em que existiu um relativo vazio na direcção da claque aconteceu a minha primeira “prova de fogo”, não como director nem nada que se pareça mas como alguém a quem tinha sido confiada uma missão.
 Estávamos então no dia 17 de Setembro de 1995 quando fui indigitado para ajudar na deslocação a Chaves desse ano.
Essa viagem ficou para sempre na minha memória, foi aquilo a que podemos chamar “baptismo infernal” e ainda muito recentemente quando lá passei tudo se fez fresco na minha memória e lembrei-me desse dia como se fosse hoje…
A deslocação como todas nessa altura era poderosa, os Panteras Negras gozavam de uma reção quase impar no panorama nacional do apoio organizado a clubes.
Duas camionetas para chaves; cem elementos que antes de entrar na cidade estiveram nos arredores e fizeram a festa num bar que tinha toldos e lonas que quem esteve presente nunca mais poderá esquecer.
 No estádio o ambiente era bem hostil mas nunca deixamos de ser a família que sempre fomos: Todos juntos, todos presentes e sempre a apoiar.
 À saída presenteados com uma chuva de pedras tivemos que nos fazer à estrada até às camionetas.
 Pelo caminho algumas hostilidades fizeram despertar a Pantera e ninguém ficou para trás. Nessa altura sempre fomos “um por todos e todos por um”.
O respeito era ingrediente fundamental no prato dos nossos adversários quando passávamos e defendíamos com unhas e dentes a nossa gente, fossem ou não Panteras.
Assim aconteceram algumas escaramuças e violência e foi com esse cenário de fundo que em 2 de Outubro de 1996 - mais de um ano volvido e quando já era de facto director dos Panteras Negras – fui constituído arguido e senti na pele pela primeira vez o lado menos positivo de estar numa claque.
Fui rotulado de criminoso pelo estigma lançado pelas autoridades que me inquiriam.
Quem me conhece sabe que isso para mim é uma coisa muito séria, mas como sempre fiz questão de fazer ao longo dos anos que estive nos Panteras Negras sofri em silêncio e resolvi o assunto sem levantar muitos problemas e de forma discreta.
Consta que por pouco não me cruzei com o Dr. João Loureiro nos corredores das instalações da PSP na R. da Boavista nessa altura e fiquei ciente em reunião com o próprio - acompanhado do incomparável e impecável Sr. Silva – do seu profundo desagrado pela situação causada.
Na altura fiz-lhe ver que não estaria a gostar mais do que ele de toda esta situação e que a mesma não passou de uma consequência inevitável de acontecimentos anteriores.
 Resumindo, no dia 27 de Novembro de 1996 tomei conhecimento do douto despacho de arquivamento dos autos em que era arguido que foi emitido em 31 de Outubro de 1996, mas até então tive momentos de alguma preocupação por ter sido arrastado para uma situação que até à altura me era completamente desconhecida.
Numa noite em que se não me falha a memória fomos ganhar à Luz na época de 1995/1996; no regresso ao Porto insistimos em comemorar a vitória e fomos para o Cais 447, famosa discoteca de Matosinhos que durante muitos e bons anos também foi como que uma segunda casa para mim.
Nesse mesmo dia que nunca esquecerei e já depois da mítica viagem de comboio a Santo Tirso sob uma chuva intensa o Mané convida-me para ser um dos directores da claque chamando-me à atenção para as responsabilidades sérias que passaria a assumir no caso de aceitar o cargo.
Durante alguns anos fui director da claque e não vou obviamente fazer observações sobre esse período mas penso que eu, Marco da Cordoaria, Mané, perfeito e Cigano marcamos um tempo de ouro dos Panteras Negras.
Quem não se lembra da viagem a Milão, das deslocações a Faro e a Lisboa, dos cortejos a Vidal Pinheiro e às Antas e das Finais da Taça de Portugal.
Depois dessa altura quando saí do activo afastei-me um pouco mais da claque por motivos que nem eu próprio sei explicar à excepção do ano do título na época 2000/2001 em que estive a trabalhar para o Boavista na cabine de som do estádio.
Tomei conhecimento do desagregamento da claque e de que a mesma estava à deriva e juntamente com o Hélder e algumas outras pessoas cheias de boa vontade resolvemos criar bases para um novo ressurgimento.
Neste momento ajudo como posso e confio plenamente na Joana, Hélder, Bruno e Eduardo que estão a ser ajudados por outros e penso mesmo que eles estão a fazer ressurgir a mística desta claque com 20 anos de história.
É muito tempo a apoiar o nosso clube de forma desinteressada e com muitos sacrifícios de quem esteve e está com os Panteras, mas valeu, vale e valerá bem a pena trabalhar para engrandecer este nome que dá nome ao Clube do nosso coração.
A todos os que estiveram e estão comigo ao longo destes anos só posso agradecer de forma sincera e honesta as alegrias que nos proporcionaram e a amizade familiar com que nos brindaram.
Com toda a certeza esqueci-me de mencionar muitas pessoas de quem gosto muito mas todos sabem quem são e sabem também que estão e estarão no meu coração para sempre.
A todos o meu muito obrigado.

publicado por PNvelhaguarda às 04:01
| Dá o teu bitaite
24 comentários:
De Perfeito a 15 de Dezembro de 2006 às 13:42
Grande celtic,
Com este texto parece que puxei o filme da minha vida atrás. Fantastico reviver esses momentos, sem palavras!! Lembro-me de tudo como se fosse ontem. Infelizmente esse periodo em que a claque andou à deriva foi porque tivemos todos de seguir caminhos diferentes... tu para o som do BFC, eu estrangeiro, o Miguel Viso (esqueceste-te deste grande homem) que foi para seguranca do Boavista, cigano que desapareceu, Marco toda a gente sabe tambem e o mane pelos filhos... (mas este gajo ainda consegue dedicar-se!)... enfim... Os Panteras estiveram e estarão sempre no meu coracao até depois de morrer!! Abraços e obrigado helder por estas recordacoes do teu blog!!!


De MPTHSjquR a 10 de Junho de 2007 às 14:27
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