Quarta-feira, 26 de Dezembro de 2007

PETER JEHLE

 

 

 

Quem anda no mundo do futebol, sabe que será sempre arriscado elogiar um jogador do próprio clube e assumi-lo em casos extremos, como um verdadeiro idolo e isto porque não faltam factores para que a nossa opinião mude da noite para o dia...enquanto os adeptos ficam, os jogadores estão simplesmente de passagem, para a esmagadora maioria, o clube que representam é apenas mais uma etapa da sua vida profissional.

Existem no entanto jogadores que deixam marcas por onde passam, cada vez mais é disso exemplo o nosso Guardião Peter Jehle, ele pode não ser nenhum fora de série, no próximo jogo pode até ter uma fraca exibição ( que isso não aconteça ) ou até na próxima época mudar de emblema, contudo e se eu já admirava a sua humildade e entrega, com a entrevista que deu ao jornal "OJogo", subiu e muito na minha consideração, para os mais distraídos transcrevo na íntegra o respectivo destaque dado ao nosso jogador :

 

"Nunca dormi tão mal como na noite do Benfica" 

Se há partes do Mundo em que basta dar um pontapé numa pedra e surge um futebolista, esse não é o caso do Liechtenstein, cujo solo é conhecido por não produzir rigorosamente nada de valioso. E, no entanto, o segundo país mais pequeno da Europa (a seguir ao Vaticano) é um dos mais ricos. O segredo está na consciência da distância a percorrer para poder sobreviver, com qualidade de vida, entre gigantes. É mais ou menos esta a história de Peter Jehle, 25 anos, guarda-redes do Liechtenstein desde os 16 e recente conquistador da baliza axadrezada. Ganhou-a depois de ano e meio de muito trabalho, na noite mais improvável, a da goleada na Luz (6-1), à décima jornada. Aquela que pôs em evidência a fragilidade de uma equipa cuja crise está longe de se resumir à luta para fugir ao fundo da tabela, mas que vai ganhando "confiança". Jehle é um dos rostos da recuperação. Viu-se com a Naval (2-0) e em Braga (0-0).

 

P | Apetece dizer que finalmente chegou o seu tempo na baliza do Boavista. É assim que o sente?
R | De cada vez que jogo sinto-me muito grato, porque conheço o outro lado, sei o que é não jogar. Para mim, é uma honra enorme ser o primeiro guarda-redes do Boavista. Tenho um grande respeito por esta função. Respeito-a muito. É uma honra, a que tentarei dar continuidade. Naturalmente que quero continuar no onze e trabalharei arduamente para isso.

 

P | Concorda que precisava de um jogo como aquele da Naval, em que esteve nos momentos-chave?
R | Sim, sim. Pude ajudar a equipa a ganhar pontos. Por vezes, é disto que um guarda-redes realmente precisa. Um bom guarda-redes pode ajudar a garantir 10/12 pontos por época. É isso que quero muito, em todos os jogos, ainda que nem sempre seja possível.

 

P | Soube bem o momento em que esteve cara a cara com Elivelton?
R | Claro! Ainda faltava muito para o fim do jogo; então, a primeira coisa em que pensei foi: pronto, isto correu bem, agora temos de ver se não concedemos um golo num canto ou qualquer coisa do género. Queria muito ficar com a folha limpa, porque sofri muitos golos, em partidas anteriores. Com o Benfica, foi mesmo muito difícil. Acho que nunca dormi tão mal como nessa noite!

 

P | Foi tão inesperada, aquela goleada. O que aconteceu?
R | Foi… horrível! Realmente horrível. Durante um largo período, fizemos um bom jogo…

 

P | Parecia o melhor do Boavista, até então…
R | Também achei que sim! Estava feliz pelo nosso desempenho, e depois, nos últimos 25 minutos, ficámos à deriva no relvado! Não havia mais equipa, não havia espírito para lutar mais, e isso é o pior que pode acontecer. Sofremos golos atrás de golos, saí do campo completamente arrasado. Mas são coisas que acontecem, vemos jogos em que, de um momento para o outro, uma equipa sofre cinco, seis golos.

 

P | Receou perder o lugar?
R | Não. Achei que não foi por causa de erros meus que sofremos seis golos. É claro que não estava satisfeito, mas, ao analisá-los, em casa, vi que eram situações difíceis. Acreditei que o 'mister' Pacheco me daria outra oportunidade para mostrar que tenho capacidade para ajudar a equipa.

 

P | Por que acha que demorou tanto a ter uma oportunidade? E como resistiu?
R | Por mim, queria estar a jogar há muito mais tempo. Mas, temos de respeitar as decisões do treinador. Sempre o fiz, desejei o melhor para a equipa. Às vezes, ficava muito triste por não poder ajudar, mas dizia para comigo: a situação é esta; só podes mudá-la se deres o teu melhor nos treinos, e talvez um dia tenhas uma oportunidade. É a única coisa que podemos fazer. Qualquer outra via é má escolha: se criamos problemas ou não treinamos bem, só nos magoamos a nós próprios.

 

 "Nóvoa deve ficar farto de me aturar"

ndiferente ao estatuto de titular, que só recentemente conheceu, não é raro Peter Jehle ficar com o relvado só para ele e Vítor Nóvoa, no final do treino, a insistir em determinado exercício com o adjunto em quem vê "um treinador e um guarda-redes com grande capacidade". "Por mim, até gostava de treinar mais e mais com ele, porque me ajuda a evoluir, a ser melhor guarda-redes, mas o tempo é limitado" e "os exercícios de equipa" desviam-no de um investimento ainda maior nesse tipo de preparação. "A partir do momento em que tive a oportunidade de ser futebolista profissional, decidi que queria tirar o máximo de cada dia. É uma carreira muito curta na nossa vida. Passa muito depressa! Quando somos jovens, não nos apercebemos, mas é assim: há quase dez anos que sou profissional e passou tão depressa! Quero aproveitar todos os dias. Às vezes, Vítor Nóvoa diz que quero demais, mas é uma questão de encontrar equilíbrio no que pretendemos. É um treinador muito experiente, deve ficar farto de me aturar! Agradeço cada minuto que podemos trabalhar, com ele e com os outros guarda-redes."

"Temos de ser uma família em que todos se ajudam"


Há alguns anos que o Boavista começou a ser notícia por causa de problemas financeiros, mas, nos últimos meses, a situação agravou-se: João Loureiro abandonou a SAD, falida, nas mãos do novo presidente, Joaquim Teixeira, e deixou para trás uma lista de problemas que não largam o balneário. Houve de tudo a perturbar o quotidiano da equipa. Desde os crónicos salários em atraso à inédita venda de passes de jogadores em hasta pública, tudo ajudou a empurrar o xadrez para o fundo da tabela, de onde Jehle acredita poder sair, com o esforço de todos. Se alguém duvida que a crise tem saída, o Estugarda está aí para o confirmar, conta.

 

P | O Boavista conseguirá deixar o fundo da tabela? Nunca imaginou uma situação destas, quando veio para o clube, pois não?
R | Não, mas isso foi erro meu. Devia ter-me informado melhor, porque já havia alguns problemas, mas eu conhecia o Boavista pela televisão e o que sempre vi foi uma equipa muito boa, organizada. Tinha e ainda tenho muito, muito respeito pelo passado deste clube. Estamos a atravessar uma fase difícil.

 

P | Como é que se resiste a tudo isto? O presidente que abandona, os salários em atraso, os passes vendidos em leilão…
R | Tento confiar muito que as pessoas conseguirão resolver os problemas. Também temos que fazer algo por isso, todos os dias. Podemos ajudar o clube se conseguirmos bons resultados e é para isso que damos o máximo, em cada treino. Temos de nos concentrar nisso. Mesmo que surjam outras coisas, não podemos pensar nisso. Até as pessoas na rua perguntam se recebemos, porque toda a gente sabe o que se passa. Ou seja, não se pode deixar de lidar com os problemas, mas, logo que possível, temos de nos concentrar no nosso trabalho e tentar fazer o melhor pelo Boavista. E, no clube, todos temos de fazer isso, todos. Independentemente de ser o director, o fisioterapeuta, o secretário, o guarda-redes, o treinador ou o avançado, todos têm de se empenhar ao máximo, e só assim poderemos levantar-nos de novo e enfrentar este período difícil. Às vezes, com os sócios, sinto que eles estão muito orgulhosos do clube, esperam mais do Boavista.

 

P | A união é a chave?
R | Neste momento, temos de ser como uma família, em que todos se ajudam. Se começa a haver divisões, será pior. Temos de estar unidos. Temos de ser um, todos os que temos um coração do Boavista. Se for assim, vamos erguer-nos. Em todo o mundo, há clubes que passam por isto! O Estugarda esteve agora na Liga dos Campeões e venceu o campeonato alemão na época passada, mas, há cinco ou seis anos, teve problemas gravíssimos. E resolveu-os. Há centenas de exemplos de clubes que conseguiram reerguer-se, porque as pessoas se uniram e tentaram resistir. Agora, temos de trabalhar todos juntos, muito, muito, muito. Depois, nas férias, descansamos. Agora, é tempo de trabalhar.

 

 "Sinto-me grato por ter este passaporte"


Há nove anos que a pequena selecção que empatou Portugal no apuramento para o Mundial'2006 confia a baliza a Peter Jehle

 

P | Sente que o passaporte é a sua principal limitação? Pelo preconceito de ser o titular do Liechtenstein, uma pequena selecção, em termos futebolísticos, e porque a presença na equipa nacional o impediu, por diversas vezes, de disputar a titularidade?
R | Por um lado, é verdade, porque não há um grande respeito pelo meu país em termos futebolísticos. Não temos grandes sucessos para apresentar…

 

P | Portugal não pode falar muito no que respeita a jogos com o Liechtenstein…
R | [risos] Mas senti-o, especialmente na Suíça. Quando o meu "rival" era suíço, tinha de ser sempre muito melhor do que ele. Se fôssemos iguais… tinha essa desvantagem do passaporte do Liechtenstein. Por outro lado, tenho de admitir que este também representou uma enorme vantagem para mim. Comecei na baliza da Selecção aos 16 anos, tenho 25 e fiz 65 jogos pelo meu país! E isto é algo que não teria conseguido em qualquer outra parte do mundo e que ninguém me pode tirar: a grande experiência que já tenho nesta idade. Já joguei contra as grandes nações do futebol. Só faltam Itália e França. De resto, defrontámos Portugal, Espanha, Alemanha, Inglaterra, Holanda… todas as grandes nações que sonhava defrontar. Sinto-me muito grato por ter este passaporte, que me permitiu tal e me fez evoluir como. Além disso, quando não jogava no clube, a Selecção deu-me motivação, permitia-me jogar ao mais alto nível.

 

P | Mas não sentiu, em certas alturas em que foi chamado à selecção, que, se tivesse ficado no Boavista, isso poderia tê-lo ajudado a ganhar a baliza?
R | Não sei dizer. O treinador sabe como é importante um jogador ser chamado a jogar pelo seu país e tem muito respeito por isso. Por outro lado, claro que por vezes poderia ser bom ficar e lutar pelo lugar, mas a Selecção é muito importante para mim.

 

P | E o Liechtenstein está a melhorar…
R | Este ano, fizemos sete pontos. Não é mau para um país de 35 mil habitantes

Vencedor aos 16 anos

Peter Jehle tem 25 anos, mas já é quase um veterano na baliza do Liechtenstein. A história da estreia faz parte da do próprio futebol da terra natal, que soube o que era ganhar com um menino de 16 anos na baliza: "Era muito novo, mas o seleccionador, que era alemão, achou que já estava pronto para jogar e deu-me essa oportunidade. No meu primeiro jogo, conseguimos a primeira vitória de sempre numa fase de qualificação para o Campeonato do Mundo, contra o Azerbaijão. Pensei que devia parar por ali: seria o único guardião invencível do Liechtenstein! [risos] Mas continuei..." Até hoje, o lugar é dele, e pontuar já não é tão raro assim para aquela nação.

Operário fabril na adolescência

São apenas 76 quilómetros de fronteira, repartidos com a Suíça e a Áustria, parte dos quais desenhado pelo curso do Reno. De ponta a ponta, o Liechtenstein atravessa-se em 20 minutos - pela auto-estrada suíça, que fica a 200 metros da linha que marca a identidade do principado. A independência de uma parcela de terra tão pequena tem uma explicação prosaica: "Éramos tão pobres que ninguém estava interessado no nosso solo." A não ser para lutar. Sem riquezas naturais, o Liechtenstein decidiu criá-las, e, em meio século, desapareceu o "país pobre de agricultores" e nasceu uma das nações mais ricas da Europa, onde o rendimento médio dos cidadãos ultrapassa os números da Suíça - o vizinho do qual adoptou a inabalável moeda.

Peter Jehle é filho desse espírito empreendedor do Liechtenstein. O pai era operário da Hilti, onde o guarda-redes também foi "aprendiz", aos 15 anos. A jornada de trabalho era de 8h45 diárias, bem pagas no final do mês. "Sabemos que temos de trabalhar muito para ter uma certa qualidade de vida, porque, de resto, não temos petróleo, nem diamantes, nem ouro… A única coisa que temos é água. Tudo o resto, temos de importar. Então, temos de nos esforçar para produzir bens, vendê-los e ganhar dinheiro". Além disso, continua, têm "os bancos", que imitam a bondade dos suíços nas perguntas que não fazem aos clientes, e uma política que facilita a implantação de empresas - condições propícias à lavagem de dinheiro, o que o Liechtenstein promete combater de futuro.

 

 

 


publicado por PNvelhaguarda às 01:59
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